segunda-feira, 24 de outubro de 2011

TRILOGIA LUGOSI



O DESAPARECIMENTO 




Sua última aparição foi em fevereiro. Foi aplaudido de pé numa casa de espetáculos da cidade. E assim como as horas se apagam no final do dia, Renato Turnes desapareceu. No período em que ainda circulava no bairro, os vizinhos comentam que ele não era nada diferente do que sempre foi. Estranho, mas igual na sua estranheza, oras! E o porteiro do seu edifício – que era uma construção antiga no centro da cidade – disse não haver notado a última saída daquele sujeito. Menos ainda que se tratava de uma figura conhecida, desses que não se enterram no quintal dos fundos. Em compensação, a ausência foi descoberta quando o gato do desaparecido se lançou do sétimo andar. O caráter de Turnes, o dono, era “silencioso e paciente como uma sombra”. Quanto ao gato, não era de se esperar que fosse impulsivo. Mas seu Valdemar duvidou mesmo de outro detalhe: a magreza desesperada do animal. “Feito osso e alma”, sussurrava o porteiro aos que se aglomeravam diante do corpinho minúsculo e aniquilado. Respeitou as fisgadas no intestino (que era coisa de família), convocou moradores, igreja e polícia. Arrombou o apartamento 701. Na sala viram uma poltrona verde, a qual conservava o formato do procurado. Parte do estofado estava exposto pelos arranhões de Lugos, o bichano abandonado. Em frente ao móvel solitário, um grande espelho. No braço de veludo notaram três livros: Edgar Allan Poe; Lovecraft e Fernando Bonassi. A vizinha do 702 nunca tinha ouvido falar naqueles escritores, mas em uma coisa era absoluta: “Com histórias não se brinca!”. E as cortinas da grande janela balançaram, até que alguém as fechasse.


O PRIMEIRO SUSPEITO

Foto: Luiz Nadal


A ILUSÃO
Naquele tempo, quando conheci Renato, ele era jovem. Muito mais jovem do que imaginava ser. Estava solitário, magro e sem dinheiro. Não estava doente, ainda que sua aparência fosse flácida. Andava curvado pelos teatros escuros à procura de um papel, de um personagem que nunca viria. Duvidava da sua sorte e do seu talento. Era patético ouvi-lo gaguejar. Mas ainda assim era cativante. Certa noite, depois de haver jantado uma mistura miserável, revirava-se na cama. Preocupado? Não sabia com o quê. Chovia. Tentou ler alguma coisa para trazer o sono. Abriu o “Contos extraordinários”, caiu no “O Coração delator” e ali me encontrou. Pelo menos foi assim que ele imaginou. Ao acreditar que a ideia de me possuir fosse sua, ganhou uma boa dose de confiança. Mas querem saber a verdade? Eu sempre estive por ali: espreitei as portas entreabertas, observei o seu sono conturbado, ri das suas excitações. Até que chegou a hora. Eu pulei para dentro dele!


Foto: Luiz Nadal



O RITUAL
Aquele corpo ridículo guardava um reservatório de almas. Um abismo negro e profundo. Sua escuridão me alimentou durante a gestação. Assim como eu, ele acreditava não ser louco. Mas as opiniões eram todas contrárias. Teimava em descrever seus crimes como obras de arte. Eu sei que ele esperava por mim, não tenho dúvidas! Preparava-se como um guerreiro para a batalha. Carregava uma máscara assustadora, da loucura e da morte. Era o meu rosto! E quando começava o ritual, éramos um. A experiência lhe exigia esforço, uma energia dolorosa. E no fim, eu ainda exigia as minhas recompensas. 


Foto: Luiz Nadal



O ABANDONO

Se ele ficou forte, foi às minhas custas. Sua composição orgânica e espiritual era limitada. Entre eu e ele existia um espaço vazio. Feito dos seus medos, da sua solidão e da pura ignorância. Às vezes eu permitia que esse espaço diminuísse. Quase nos tocávamos. Mas depois eu me afastava, para que sobrevivêssemos. Ele me pariu e depois me chantageou, como fazem as mães. Chorou, mas não era bom ator. Fingiu estar apaixonado por mim e depois me abandonou. Por isso eu o odeio, porque não posso viver sem ele no mundo. Estivemos atados. Quando ele desapareceu, fui expurgado do seu corpo. Sofri por alguns momentos antes de retornar à prisão. Daqui, o que me resta é escolher o próximo.


Foto: Luiz Nadal



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