terça-feira, 25 de outubro de 2011

TRILOGIA LUGOSI


O SEGUNDO SUSPEITO

Foto: Luiz Nadal



O PESADELO
Antes de me conhecer, Renato já havia desistido de mim. Então, numa noite gelada, adormeceu e carregou o peso dos sonhos. Apareci! Assim mesmo, em sonho. Ele estava nu. Uma chuva negra lhe rasgava a pele e expunha os ossos retorcidos. Aos poucos, lento e doloroso, ele se transformou na caricatura da sua própria forma humana. Dizia palavras de Lovecraft, abafadas pelos trovões. A chuva parou. Ele caiu exausto sobre o chão. A água negra alagava as pedras envelhecidas e formava um espelho tétrico. Aranhas silenciosas lhe mordiam os calcanhares. No rosto, ele sentia o bater das asas de morcegos pestilentos. Aproximou-se do espelho. No seu próprio reflexo, viu a mim. Sentiu o pavor, o abandono, a incompreensão! E acordou mudo. 


Foto: Luiz Nadal



O PACTO 
Eu o encontrei translúcido. Sua pele era invisível e eu podia ver por dentro dele. Via através dos músculos e das artérias, dos ossos e das cartilagens. Toquei com minha mão aquilo que os crentes chamam de alma. E a sua era tão escura quanto o calabouço onde eu havia me criado. Senti-me em casa. Era nele que eu me recolhia. Cobria-me com seus pensamentos mais proibidos e assim me aquecia. Eu era a sua noite. Ele era o dia que nunca me foi permitido. Depois do pesadelo, ele me buscou novamente. Ele temia olhar nos meus olhos. Sei que é uma visão insuportável. Compreendo. E tive piedade dele, acreditem. Foi por isso que fizemos um pacto: ele enxergaria apenas o suficiente para não enlouquecer. E assim subiríamos  juntos a torre negra. De mãos dadas. 


Foto: Luiz Nadal







A LEMBRANÇA

No princípio, ele teve medo. Ficava paralisado diante de uma visão tão grotesca quanto a minha. Compreendi e esperei. Pouco a pouco senti seus dedos tocando minha pele podre. O toque trêmulo era quase um carinho. Eu jamais havia sentido o toque humano. Mostrei a ele a beleza improvável da minha monstruosidade. A cada noite, quando ele me erguia da tumba líquida e viscosa, executávamos uma dança ritual ao redor do túmulo. Entregávamos ao mundo a lembrança do mal que eu sofri. E do qual sou filho. Enquanto dançávamos, relembrávamos a minha história, que é muito antiga. Choramos e nos abraçamos muitas vezes. Consolamo-nos um ao outro. Lamentávamos a escuridão do nosso lar. Apesar do medo, ele compreendeu desde o início: nossos rostos, quando expostos à luz da lua, são gêmeos.


Foto: Luiz Nadal





2 comentários:

  1. "gêmeos". ressoa a memória das vezes em que participei do espetáculo.

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  2. e quando você viu? (bacaníssimo o teu blog, dei uma bisbilhotada lá)

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