quinta-feira, 27 de outubro de 2011

TRILOGIA LUGOSI


O TERCEIRO SUSPEITO


Foto: Luiz Nadal

A SEPARAÇÃO
Tudo começou ainda bebê. Eu fingia que dormia, mas pensava. E quando pensava, era sempre com piedade. O que virou desdém, depois de algum tempo. Levei Renato à escola. Fiz com que parecesse um idiota. Quis aparecer, durante as zombarias, para que aquela gente engolisse as próprias mediocridades. Mas me contive, em favor de minha existência. Continuei escondido. Fingi ser Renato, o ator, durante toda a minha juventude. Fingia conviver e imitava meus fingimentos com um virtuosismo particular. Camuflado de mim mesmo, ninguém me percebia. Até que um dia, tão próximo estávamos nós dois, nossa convivência se tornou insuportável. Resolvi me separar. Senti dor pela primeira vez. Ele, fraco, sentiu medo. Nosso fim veio em formato de película. Viramos luz e sombra. 


Foto: Luiz Nadal


O VAZIO
Por que escolhi a ele? Por ser absolutamente diferente de mim. Ele é pobre. Eu sou o dono! Ele é pífio. E eu sou forte! Ele ignora. Eu sei! Ele mente e eu sou! Dele, as pessoas gostam. E a mim, temem. Nada nele é verdade. Nem mesmo seus defeitos. Ele só existe por meu intermédio. Sua existência é uma farsa burlesca, um melodrama com lágrimas de cristal. Única cena da vida de um canastrão! Além do corpo que dividíamos, humano e repugnante, não havia parentesco possível. Somos o nada um do outro.


Foto: Luiz Nadal

A CUSPARADA
Ele não me compreende. Como compreenderia? Não compreende nem a si mesmo. Desde que nos separamos, ele provou um pouco de astúcia. Por alguns momentos, seus olhos vagos demonstraram algum tipo compreensão. É como se ele tivesse conseguido me ver. Confesso que me sinto incômodo diante desse olhar. Diabólico, de tão profundo. Ele esteve prestes a enxergar  a beleza do nosso fingimento. Mas ficou atordoado, como nos tempos antigos. Essa visão é rara!  E muito custosa. Receio que ele seja um completo míope. Por isso mantive silêncio durante todos esses anos. Fingindo ser ele. E ao se olhar no espelho, ele pensava ver a si próprio. Tolo!


Foto: Luiz Nadal




1 comentários:

  1. "Somos o nada um do outro" gostei... gosto demais de como seu texto flui. E as fotos ficaram excelentes. Serviço completo e muito bem feito.

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